terça-feira, janeiro 20, 2009

Você é o que você lembra

Sem memória, como alguém poderia manter uma identidade?
Imagine só: a história da sua vida nada mais é do que uma coleção de memórias. Sem a capacidade do nosso cérebro de guardar e resgatar informações, simplesmente não teríamos identidade. Não teríamos biografia.


Também não seríamos capazes de aprender nada, pois aprender nada mais é do que a capacidade de recuperar e aplicar, no presente, informações que foram obtidas no passado.



Imagine, por exemplo, se você não pudesse lembrar nada do que aconteceu em 2008. Como saberia que esse ano existiu? Tudo que você viu, ouviu, comeu, leu e sentiu no ano passado estaria perdido para sempre. Qualquer coisa que você tivesse aprendido na escola, na rua, no cinema ou dentro de casa teria sido inútil. Todos os erros que você cometeu não teriam servido de lição para nada.



Agora, extrapole esse conceito para dois anos, três anos, vinte anos, trinta anos - ou seja lá quantos anos você tenha de lembranças acumuladas na sua vida - e dá para se ter uma ideia da importância da memória. Você só é a pessoa que é, no presente, porque é capaz de lembrar o que já viveu no passado e aprender (ou não) com suas experiências.



Imagine se alguém apagasse completamente sua memória, como num caso de amnésia severa, e você tivesse que aprender tudo de novo do zero. Será que você seria a mesma pessoa? Será que eu, por exemplo, ainda gostaria de ciência? Será que ainda sentiria vocação pelo jornalismo? Gostaria dos mesmos livros?



Assim como quase tudo na nossa vida, nossa personalidade é determinada por uma combinação de fatores genéticos e "ambientais" (o que quer dizer tudo que não é genético).



Tudo que vivemos ao longo da vida serve para moldar nosso comportamento, nossas ideias e nossas maneiras de ver o mundo - os desenhos que assistimos quando crianças, as reportagens que lemos quando adultos, os conselhos que ouvimos de nossos pais, os passeios de fim de semana que fizemos na escola, os livros que lemos na faculdade, e assim por diante. Mas isso só é possível porque somos capazes de relembrar essas experiências e aprender com elas. Ou seja: temos memória!



É por isso que o mal de Alzheimer é uma doença tão triste. Quando a pessoa perde a memória, perde também parte de sua identidade.



Entender como funciona a memória - e como ela é afetada por doenças neurodegenerativas como o Alzheimer - é um negócio de dar nó no cérebro ... e que pretendo abordar em um artigo futuro. Por enquanto, basta dizer que ela depende da formação e reconfiguração de sinapses (conexões entre neurônios) em partes específicas do cérebro.



Um exemplo muito curioso disso é o caso de um sujeito conhecido como EP, um simpático velhinho da Califórnia que, 15 anos atrás, foi vítima de uma infecção pelo vírus da herpes que destruiu partes de seu cérebro - entre elas o hipocampo, uma estrutura central no processo de consolidação de memórias.



O resultado é que ele não se lembra de nada que tenha ocorrido desde 1960, nem é capaz de formar novas memórias sobre as coisas de vivencia hoje. Sua memória simplesmente não dura mais do que alguns minutos. Se você for lá e se apresentar para ele agora, três minutos depois ele já terá esquecido completamente que você existe.



Uma vez um repórter da National Geographic foi entrevistá-lo e convidou-o para dar um passeio no quarteirão. EP disse que não estava afim. O repórter então esperou dois minutos e fez o mesmo convite. EP, que não se lembrava nem do repórter nem da pergunta anterior, dessa vez, aceitou.

A reportagem, publicada em novembro de 2007, pode ser lida aqui. EP não é um homem triste porque não tem consciência das suas dificuldades. Esquece delas a todo momento. Mas pelo menos se lembra da sua juventude e de quem ele é.

Pense nisso a próxima vez que olhar para uma foto de infância. (Se você não tivesse memória, nem saberia que é você mesmo na foto.)


Fonte: http://www.estadao.com.br/vidae/imagineso_304882,0.htm

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