quinta-feira, janeiro 29, 2009

Campeões mundiais já entraram na 10ª década de vida e não pensam em parar

Ele foi o 14.318º colocado na última São Silvestre. Mas talvez tenha sido seu maior campeão. Com 94 anos, Antonio Antunes Fonseca levou 2h46min48s para percorrer os 15 quilômetros da prova, conquistando mais um feito em uma carreira esportiva que começou aos 60, depois da aposentadoria, e reúne vários títulos internacionais de veterano.

Como ele, o também paulista Frederico Fischer, 92, coleciona marcas únicas no atletismo internacional --é o recordista mundial nos 100 m e nos 200 m, na sua faixa etária. Os dois participaram do último campeonato mundial de veteranos, na Itália, em 2007, e fizeram um verdadeiro estrago na competição, trazendo de volta montes de medalhas de ouro, prata e bronze --no total, a dupla conquistou dez medalhas.

Foi uma entre as tantas competições nacionais e internacionais de veteranos em que Fonseca e Fischer despontaram. O veterano da São Silvestre relembra com carinho, por exemplo, o Mundial de Veteranos realizado em Miyazaki, Japão, em 1993, quando ele trouxe para o Brasil o ouro na marcha atlética. Já Fischer é o dono das melhores marcas do mundo em 2008 em competições tão diversas quanto as corridas de 100 m e 200 m e os arremessos de peso e martelo.

Rumos diferentes

Mas, se hoje enfrentam desafios semelhantes nas pistas, a trajetória dos dois ao longo de décadas foi em quase tudo diferente. Fonseca passou a vida ao largo do esporte competitivo, dedicando-se apenas, com vigor, ao futebolzinho de fim de semana; Fischer disputou campeonatos de atletismo na juventude e, depois de um interregno, na meia-idade voltou às competições de pista.

Nascido na roça, em Campo Largo de Sorocaba, hoje Araçoiaba da Serra, Fonseca disputava carreira com os vizinhos quando menino. "Nós corríamos em raia de corrida de cavalo", lembra ele, durante a entrevista no sobrado em que mora, em Sorocaba, e que também abriga a academia de dança da filha mais velha.

Outras brincadeiras se pareciam com os esportes que hoje pratica: a gurizada forcejava para ver quem atirava mais longe uma pedra, um pau...

Ele só se reencontraria com o atletismo dezenas de anos mais tarde, depois de criar família e trabalhar muito. "Comecei na lavoura e na enxada. Depois, passei a comprar cereais dos caipiras e a vender em Araçoiaba. Depois, tive uma criação de suíno..." Foi também delegado de polícia, vereador e prefeito em Araçoiaba; em Sorocaba, para onde se mudou com a família, foi motorista de caminhão, feirante, corretor de imóveis e vereador. Do esporte, só não largou o futebol.

"Mas eu só tinha corrida, não era muito bom de bola. Eu corria e centrava. Então me diziam: "Você tem de entrar no atletismo, a corrida vossa é demais". E me indicaram a Associação Atlética de Veteranos, para treinar e participar. Eu estava já com 60 anos e fui lá. Comecei a arremessar peso, disco, comecei a me destacar".

Já Frederico Fischer se dedicou a correr, lançar e arremessar desde a juventude. Passou, primeiro, por uma fase náutica, velejando com o irmão mais velho na represa de Santo Amaro. Mas o irmão casou, a mulher virou sua proeira, e Fischer tratou de buscar outros rumos.

Pentatlo na guerra

Praticava no Clube de Regatas Tietê: "Em 1938, 39, já estava no atletismo. Eu era bom no arremesso, estava ficando bom mesmo. Foi quando sofri um acidente de bicicleta. Fui fazer uma manobra na bicicleta, ela escorregou, eu capotei. Eu dei um mortal, arrancou a clavícula da omoplata... Meu braço ficou lá embaixo".

De braço enfraquecido, voltou-se para as corridas. "No dia em que o Japão atacou Pearl Harbour [provocando a entrada dos EUA na Segunda Guerra], eu estava disputando o pentatlo no Corinthians, no Parque São Jorge." Na prova do salto em distância, errou o cálculo e caiu com os cravos do sapato na palma da mão direita: "Rasguei a mão, nem sei como. Fui para a enfermaria, costuraram na marra, sem anestesia..."

Em 1945, chegou a campeão paulista nos 400 m com barreira, mas logo as exigências do trabalho e da vida familiar --casou-se em 1947 com uma jovem velocista que conhecera no clube-- o impediram de continuar nas competições. Mas não lhe tiraram o esporte do corpo, que viria, anos mais tarde, a pedir por correr.

Alívio

"Eu era diretor de uma empresa, e a gente passava crises financeiras bravas. A cabeça vivia muito cheia de problemas. Uma vez eu estava em São Paulo, passando pelo clube, resolvi dar uma corrida. Fui, corri, suei bastante. Quando sentei no carro, voltando para casa, senti um alívio tremendo na cabeça. Achei que tinha sido a corrida.Aquela transpiração, o sangue circulando mais forte, parece que faz uma limpeza lá dentro. Então decidi voltar a correr."

Aos poucos, retomou a vida no clube. Conheceu colegas, ajudou a montar disputas entre os "velhinhos", chegou a dirigente da entidade paulista de atletismo de veteranos. E hoje, como Fonseca, é demonstração viva de que idade avançada e esporte não são incompatíveis.

Cansaço e superação

"Não é só bocha e truco que o idoso deve fazer. Tem é que se movimentar mesmo. E outra: sentir cansaço. Não é começou a cansar e parar. Tem de forçar um pouco mais", receita ele.
Há que sempre buscar a superação, parecem ensinar os dois nonagenários, ainda agora preocupados com suas marcas.

Fonseca, depois de mandar ver na São Silvestre de 2008, antecipa seus próximos passos: "Quero me preparar bem porque no ano que vem ainda quero melhorar o meu tempo".

Folh OnLine

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