segunda-feira, agosto 25, 2008

Ruídos

Você pode controlar a maioria dos ruídos do seu corpo (o espirro, o arroto, você sabe do que estou falando) mesmo que isto lhe custe algum suplicio. Mas existe um ruído absolutamente incontrolável, que nada reprime ou disfarça. É aquele barulho que faz a barriga quando menos os que estão à sua volta ou você esperam. Geralmente - é fatal - no momento de maior silêncio no recinto.

Isto já aconteceu, claro. Você está, digamos, numa sala de espera, naquele convívio forçado e constrangedor de uma sala de espera lotada, e de repente sua barriga faz "grwol". Depois "grl, grl" e logo em seguida "brliadbm". E quando tudo parece terminado, vem um Post Scriptum: "Piauiiim..."

Você olha em volta sem mexer a cabeça. Será que alguém ouviu? Claro que ouviram. Na rua devem ter ouvido. O que fazer?

Você pode ficar impassível, olhando para um ponto qualquer no infinito.

Não foi a sua. E mesmo que tenha sido, o que tem? Pode acontecer com qualquer um. Você não tem que dar satisfações a ninguém. Só espera que o fato se perca no esquecimento. Mas sua barriga repete a seqüência.

"Grwol". Depois "grl, grl". Depois "brliadbm".

Silencio. Suspense.

Finalmente: "Piauiiim...

"Você pode sorrir para todos e sacudir a cabeça, resignado, como que desistiu de disciplinar uma criança rebelde. "Essas barrigas...". Os outros aceitarão seu convite para uma confraternização bem humorada em torno do que é, afinal, um incidente gástrico, e portanto comum, banal e profundamente humano. A desvantagem deste procedimento é que ele só dará certo uma vez. Se sua barriga voltar a manifestar, você não contará mais com a boa vontade unânime dos circundantes. Alguns farão cara de "Foi divertido, mas agora chega".E não há nada que você possa fazer.

Um terceiro caminho é, no momento do barulho, olhar para a pessoa do lado com um misto de surpresa e indignação. É uma tática calhorda, mas você transferirá as suspeitas.

Ou então você só tem uma saída: assumir a barriga e seu repertório. Foi a minha, sim, e tenho orgulho dela!

Luis Fernando Veríssimo

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