sábado, agosto 23, 2008

Exercício pode ajudar cérebro de epiléptico

Correr na esteira por uma hora ao dia ajuda a proteger o cérebro epiléptico. Estudos feitos com ratos na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostram que as crises da doença podem cair até 50% com a prática de exercício físico.

"O mecanismo neurológico exato [que dá a proteção] não é totalmente conhecido, mas já temos vários indícios", disse à Folha o pesquisador Ricardo Mario Arida, que há 20 anos estuda o tema no Departamento de Fisiologia daquela universidade paulista. A epilepsia atinge de 2% a 4% da população dos países pobres.

Os resultados obtidos por Arida, que foram divulgados anteontem durante a 23ª Reunião Anual da Fesbe (Federação de Sociedade de Biologia Experimental), conseguiram medir o aumento da taxa metabólica cerebral em duas partes específicas do cérebro, o colículo inferior e o córtex auditivo.

"Ambas estão relacionadas com o sistema de alerta e vigilância", afirmou Arida. Além do indício elétrico, os trabalhos, segundo o pesquisador -que é formado em educação física-, também detectaram um aumento na liberação de neurotransmissores no cérebro epiléptico.

É todo um conjunto de fatores, de acordo com Arida, que faz o cérebro do animal com epilepsia induzida ter uma plasticidade diferente e ficar mais atento.

"Também detectamos uma presença maior da proteína parvalbumina no cérebro dos roedores que faziam atividade física", disse o pesquisador da Unifesp. Essa proteína ajuda o sistema de proteção do cérebro.

As medições feitas nos ratos epilépticos indicam que não foi apenas o número de crises que caiu.

No modelo em questão, o de epilepsia do lobo temporal -a variedade da doença mais resistente aos medicamentos convencionais-, o chamado limiar do cérebro contra a doença também subiu. "As crises começam mais tarde nos animais treinados", afirmou.

Aeróbica

De acordo com Arida, apesar de os estudos com seres humanos ainda serem incipientes, já é possível prescrever atividade física aeróbica para portadores de epilepsia. "É preciso que os médicos criem essa cultura. Mas não podemos dizer que o exercício físico é uma alternativa ao tratamento convencional. Ele é uma atividade complementar", disse.

Até os anos 1990, afirmou Arida, as instituições internacionais de estudo de epilepsia eram contra a prática de atividade física. "Mas agora, a não ser em casos muito extremos, como no alpinismo, é totalmente viável a atividade física na vida de um epiléptico. O risco de uma nova crise é real, mas existe um ganho até psicológico muito grande."

Folha de S.Paulo

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