sexta-feira, julho 18, 2008

papo de malandro


Na década de 50, o malandro carioca “Zé da Ilha” prestou o seguinte depoimento à polícia:

“Seu doutor, o patuá é o seguinte:

Depois de um gelo da coitadinha resolvi esquinar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho no sabão.

Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira e troquei por centavos um embrulhador.

Quando então vi as novas do embrulhador, plantado com um poste bem na quebrada da rua, veio uma pára-quedas se abrindo, eu dei a dica, ela bolou, eu fiz a pista, colei; solei, ela aí bronqueou, eu chutei, bronqueou mas foi na despista, porque, muito vivaldina, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando.

Morando na jogada, o Zezinho aqui ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarração dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas, sem esperar, recebi um cataplum no pé do ouvido.

Aí dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muqueada nos mordedores e taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança pondo-o por terra.

Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas.

Papai,
muito esperto, virou pulga e fez a dunquerque, pois o vermelho não combina com a cor do meu linho.

Durante o boogi, uns e outros me disseram que o sueco era tira e que iria me fechar o paletó.

Não tenho vocação pra presunto
e corri.

Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem no vazio da Lapa, precisamente às 15 para a cor-da-rosa.

Como desde a matina não tinha engolido a gordura, o roque do meu pandeiro estava sugerindo sarro.

Entrei no china-pau e pedi um boi a mossoró com confete de casamento e uma barriguda bem morta.

Engoli a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa pra botar na pendura que depois eu iria esquentar aquela fria.

Ia pirar quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do Mangue, foi direto ao médico-legal para me esculachar.

Eu sou preto mas não sou Gato Félix, me queimei e puxei a solingea.

Fiz uma avenida na epiderme do moço.
Ele virou logo América.

Aproveitei a confusa para me pirar, mas um dedo-duro me apontou aos xifópagos e por isto estou aqui.”

Não entendeu nada? A tradução é a seguinte…

Tradução “malandrês-português”


patuá: forma giriática para substituir “o negócio”, “a questão”, “o problema”.
gelo: desprezo
esquinar: ficar parado em esquinas, à espera de algo
cabrocha: mulher
que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho no sabão: que cozinhasse para mim e lavasse a minha roupa
bordejava pelas vias: perambulava pelas ruas
abasteci a caveira: tomei uma bebida - uma cachaça
troquei por centavos um embrulhador: comprei um jornal
na quebrada da rua: na esquina
veio uma pára-quedas se abrindo: veio uma mulher demonstrando interesse pelo malandro
eu dei a dica: o malandro dirigiu um gracejo à mulher
ela bolou: a mulher foi receptiva à lisonja do malandro
eu fiz a pista: acompanhei-a
colei: aproximei-me, caminhando ao lado da mulher
solei: conversei com a mulher
bronqueou: demonstrou com palavras iradas, o seu desagrado
vivaldina: viva, esperta, inteligente
o cargueiro estava lhe comboiando: o namorado a estava acompanhando
morando na jogada: compreendendo a situação
o Zezinho aqui: forma do malandro referir-se a si mesmo
o cargueiro jogou a amarração: o namorado se aproximou dela
um cataplum no pé do ouvido: um soco ou bofetada na orelha
dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça: dei-lhe um pontapé no joelho
uma muqueada nos mordedores: forma de muque - um soco nos dentes
taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança: saltei-lhe com os dois pés sobre o peito
ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas: sacou o revólver e fez dois disparos
papai: (outra forma do malandro referir-se a si mesmo)
virou pulga: deu um salto
fez a dunquerque: evadiu-se, fugiu

(alusão à famosa retirada de dunquerque, na Segunda Guerra Mundial)
vermelho não combina com a cor do meu linho: referia-se ao vermelho do sangue
tira: policial, detetive, investigador.
fechar o paletó: matar
não tenho vocação pra presunto: referia-se ao seu apego à vida
borracha grande: ônibus
no fim do carretel: no fim da linha, no ponto final
bem no vazio da lapa: no Largo da Lapa
às 15 para a cor de rosa: às 17 horas e 45 minutos
matina: manhã
(observe-se a influência do elemento imigrante através desse vocábulo italiano)
o roque do meu pandeiro: o ruído do meu estômago
china-pau: “china”
(pequenos restaurantes chineses que serviam pratos a preços populares, na época, muito comuns no Rio de Janeiro)
boi a mossoró com confete de casamento: bife a cavalo com arroz
e uma barriguda bem morta: cerveja bem gelada
como o meu era nenhum: como não tinha dinheiro…
pedi ao caixa pra botar na pendura que depois eu iria esquentar aquela fria: pedi ao caixa um crédito, dizendo-lhe que pagaria a despesa mais tarde.
dizendo que eu era produto do mangue: o Mangue é um dos prostíbulos do Rio de Janeiro
(curioso notar o eufemismo desta construção)
me queimei e puxei a solingea: irritei-me e saquei a navalha
(a marca do instrumento Solingen passou a sinônimo de navalha)
fiz uma avenida na epiderme do moço: fiz um talho na pele…
ele virou logo américa: ficou vermelho como sangue
(América Futebol Clube, cujo uniforme se compõe de camisas vermelhas)
dedo-duro: delator
xifópagos: policiais do Rio de Janeiro que sempre andam em duplas
(também chamados Cosme e Damião)


(recebi por e-mail)

Um comentário:

Morgana Gazel disse...

Obrigada, Mary. Sou escritora e procurava na internet informações sobre malandros cariocas da década de 50, para caracterizar um personagem de meu terceiro romance, quando apareceu seu blog. Pois é, aqui encontrei este artigo com até muito mais do que preciso. Por isso lhe agradeço por esta postagem excelente. Um sincero abraço.