segunda-feira, julho 28, 2008

O catecismo dos pps

Qualquer colunista de bom senso sabe que não convém criticar certas coisas, em especial aquelas que já caíram no gosto popular, ou mais grave: aquelas das quais você se beneficia de certa forma. Tenho refletido muito sobre se sou uma colunista de bom senso. É vantagem isso? E se eu deixar o bom senso de lado, quantos leitores vão passar a me odiar? Será que, desse total, pelo menos metade não admitirá que qualquer pessoa, inclusive uma colunista, tem o dirieto de pensar diferente da maioria? Foi então que decidi: dane-se o bom senso, vou dizer o que penso.

Eu não suporto PPS. Por favor, não me enviem PPS.

PPS é o nome dos slides em Power Point que circulam pela internet. Sabe por que eu não deveria me manifestar a respeito? Porque tem dezenas de PPS que circulam com textos meus, ou seja, eu deveria ser profundamente grata pela divulgação. Mas não sou. Sou ingrata, sou má, sou uma bruxa.

Para quem não lida com computador, a explicação: PPS são montagens virtuais. Digita-se um texto, coloca-se algumas fotos para ilustrá-lo e escolhe-se uma música de fundo. Feito isso, envia-se essa montagem para o maior número de internautas, na esperança de que eles não só gostem como se emocionem com o resultado. Cada frase do texto entra letra por letra na tela, numa vagareza massacrante. Leva-se uma vida para ler o que poderia ser lido em meio minuto numa página de livro. As fotos geralmente são de flores ou de um pôr-do-sol. E a música é a tortura suprema. Imagine o som mais óbvio que se poderia escolher. É pior. Mil vezes pior.

Quando os textos são do Vinícius de Moraes, da Clarice Lispector ou do Ferreira Gullar, fica uma tragédia igual. Agora imagine os meus.

Mas ainda não acabou: geralmente os textos não são reproduzidos com fidelidade. Os formatadores de PPS são pessoas honestas, mas pouco rigorosas na conferência da autenticidade. Formatam textos do jeito que receberam: com frases adicionadas e com um grand finale totalmente inventado para arrancar lágrimas. Propagam até a má-fé dos outros.

Por que não podemos ler livros e jornais como adultos que somos, sem auxílio de fotos e musiquinha? Ainda precisamos desse apelo motivacional para estimular a leitura? Texto não é 'mensagem'. Isso dá uma idéia de catecismo. PPS parece propaganda de má qualidade: a idéia é 'enfeitar' o produto para fisgar o 'consumidor'.

Tem um texto meu chamado 'Nossos velhos', de 2002, que circula com um encerramento totalmente diferente do que escrevi, uma chorumela de cortar os pulsos. Tem um outro, chamado 'Faxina geral', que é um texto leve e bem-humorado, mas que circula com uma música tão cafona e melancólica que detona com qualquer graça que o texto possa ter. Há uma crônica chamada 'Normose' que, ao virar PPS, cita uma tal Ordem Rosacruz, com a qual não tenho nenhuma ligação. Mas está lá, inserida clandestinamente no meio do meu texto. Ordem Rosacruz.

Claro que deve haver PPS modernos, criativos, dinâmicos, de bom gosto e que reproduzem os textos sem adulterações. Mas, estranhamente, estes quase nunca me chegam.

Não gosto de criar polêmica. Não gosto de magoar as pessoas. Não gosto de receber desaforos. Portanto, é lógico que eu não deveria ter tocado neste assunto. Mas alguém precisava defender o lado daqueles poucos que pensam como eu.

Agora é esperar que alguém crie um grande finale para esta crônica, já que eu nunca sei como concluir.


(Martha Medeiros - O Globo, 18.05.2008 - Revista de Domingo)

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