sábado, abril 26, 2008

Isabella, Perdoa-nos!



Gente adulta pode ser má, muito má. Você, Isabella, soube disso
de uma forma muito dura.
Esganaram seu pescocinho. Arremessaram seu corpo frágil
do sexto andar do seu apartamento. Você deve ter sentido dores terríveis.
Sofrido os piores minutos de pavor e agonia.
Até que seus olhinhos, mesmo estatelados,
deixaram de ver este mundo.
Isabella, pedimos o seu perdão porque nós, adultos, criamos leis que beneficiam criminosos.
A lei brasileira presume a inocência de um assassino, mesmo diante de evidencias razoáveis de culpa.
Porém, essa mesma lei não vê a inocência de uma criança.
Adultos brasileiros, Isabelinha,
têm o costume de ficar parados, assistindo às crianças morrerem.
Com isso, no Brasil, dezesseis vítimas infantis
são assassinadas todos os dias. Criançinhas da sua idade,
são torturadas, como o menininho João Hélio lá do Rio de Janeiro
e os corpinhos são trucidados sem piedade.
E o povo brasileiro não faz nada.
Os assassinatos de crianças e adolescentes aumentaram 306%,
no Brasil, entre 1980 e 2002.
Eu sei que você não vai entender esses números.
Você – como toda criança – queria viver, brincar, sorrir, ser feliz.
Esse seu direito, o assassino tirou. E agora esse mesmo assassino pode se beneficiar da lei molenga e da preguiça dos brasileiros.
Perdoe, Isabella, este país, que ainda é uma criança,
no sentido irresponsável da palavra. Ele também não cresceu.
Em assuntos sérios, como os homicídios de crianças,
o Brasil parece brincar com a justiça necessária ao caso, diante de leis que soam
como brincadeira; infelizmente, de péssimo gosto. Este país, Isabella,
não gosta de punir criminosos.
Se você perdoar a complacência da lei dos adultos com os criminosos, não pense, ainda, que todo adulto é malvado ou dá de costas para indefesas crianças.
Quando o João Hélio morreu, nós – aqui desta cidade
que você nunca ouviu falar – sentimos muito.
Escrevemos para ele também.
Nós não tivemos como enviar uma coroa de flores
para o seu túmulo, Isabelinha.
Mas não vamos ficar aqui lamentando, como muitos fazem. Nossa homenagem
a você, querida criança, é dizer-lhe que os pequeninos, nesta cidade, não estão abandonados à própria sorte.
Nem padecerão, pela fraqueza da lei diante de atrocidades como a sua.
Estamos em meio a uma grande batalha, Isabella, entre adultos.
Para alterar a visão que o pessoal tem da lei. Responsabilizar criminosos.
Cobrar respeito com os mortos, com as vítimas.
Isso tem custado um bocado, tem sido muito difícil.
E quando morre uma criança brutalmente, nós ficamos meio
sem rumo, porque percebemos que o criminoso sente o cheiro da impunidade se aproximar.
Ainda que desesperançados pela negligência da lei e pela cultura dominante de proteção aos criminosos, queríamos que você, Isabella, soubesse que o seu rostinho aí da foto nos fortalece. Enche de amor e dá sentido à nossa vida. Obrigado pelo seu sorriso, ainda que o tenhamos conhecido só pela fotografia. Você, linda criança, agora deve descansar em paz. Porque nós – adultos desta cidade que você não conhece e, seguramente, muitos brasileiros dispostos a lutar- temos uma guerra pela frente.

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Escrito por Evandro Pelarin – Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal e da Infância e Juventude da Comarca de Fernandóplis – SP, no artigo da edição nº 132 do dia 19/04/2008 do Jornal CIDADÃO, de Fernandópolis.
O Juiz Evandro Pelarin costuma dar palestras aos jovens, pais e educadores nas escolas públicas, bem como em entidades que atuam junto à sociedade prestando serviços com finalidade educativa e de direcionamento ao mercado de trabalho. Sem sombra de dúvidas, ele é um cidadão dos mais respeitáveis e alguém que faz de seu trabalho uma missão das mais nobres.
Tudo o que ele escreveu é o que muitos de nós gostaríamos de falar para a pequena Isabella. Esperando que essas palavras ecoem em todos os corações onde o amor e a solidariedade se façam presentes. Sei que Isabella agora está em paz, protegida e amparada pelo Amor Divino.
Quanto a nós, precisamos torcer e fazer a nossa parte para que mais e mais pessoas sigam o exemplo do Juiz Evandro Pelarin e arregassem as mangas para trabalhar em prol de uma sociedade mais educada, justa, equilibrada e fraterna.

Que Deus nos abençoe a todos!

3 comentários:

Gato Guga disse...

Oi Mary, li duas vezes o texto.
Sabe, eu mesmo estou pensando seriamente em me tornar um voluntário palestrantes para as escolas públicas, dirigindo palavras aos jovens sobre tais absurdos e sobre o combate àp drogas e às cervejas, que parecem não ser uma droga letal mas é. Vou me inscrever na Prefeitura de São Paulo oferendo palestras gratuitas nas escolas, pois precisamos fazer a nossa parte.
O Juiz nos mostra neste texto que há sim pessoas de bem no brasil e que nem tudo está perdido.
Sobre o caso Isabella, sou mesmo radical com vagabundos e espero que eles sejam esquartejados na prisão, mas antes sejam muito zoados pelos presos. Isso não é apologia à violência e sim apenas revolta.
Está aqui algo que os tais blogueiros deveriam fazer ao invés de ficaram trocando coisas bobas como memes. Deveriam usar a força da tal blogosfera e escreverem mais sobre combate às drogas, bebidas, cigarro e tudo que devasta o organismo das pessoas, especialmente dos mais jovens, que em minha humilde visão, são incultos e por isso morrem cada vez mais cedo. Seria muito bom que o caso da Isabella fosse usado como um exemplo e um basta nessa zona que é nossa país, mas sabemos que não será o bastante.

Alberto Cesar disse...

Boa Noite Mary.....Fiquei muito emocionado com esse comentario.......
Estou tomando a liberdade de postar no meu forum maratimba.org.aqui do espirito santo,que sei que vc tanto gosta dessa cidae ! ....!

desde ja mando um grande abraço pra vc.e fique com deus!

ta valendo!

Vai_caçar_o_que_fazer disse...

Ultimas palavras de Isabelle:

Paiê, me pôe no chããããããããão.