sexta-feira, março 30, 2007

Sejamos mentirosos sinceros

Análise crítica, porém verdadeira.

Primeiro de Abril.

Dizem que nesse dia começava o ano, como não começa mais, virou o Dia da Mentira. Mentira. A verdade (se é que ela existe) é que a humanidade sempre gostou de mentir e quis ter pelo menos um dia para fazer isso sem ter um dedo apontado na cara: “mentiroso!” Como se existisse alguém na face da Terra que não o fosse.

Você nunca se perguntou por que, no meio de tantas datas importantes, existe uma só para homenagear a mentira? Por que não existe o Dia Internacional da Sinceridade, o Dia Nacional da Honestidade ou, pelo menos, um feriadinho municipal da Verdade Nua e Crua? Porque além de atentar ao pudor, essa crueza toda causaria uma tremenda congestão.

Alguém já ouviu um “como você envelheceu, meu caro! Cê tá acabadão!” quando encontrou um antigo amigo na rua? Ou ainda: “Dinorá, seu botox ficou podre. Você tá uma monstra, menina!” Claro que não. Todos achamos lindo mentir. Por isso, mentimos até ao dizer que mentir é feio, quando feio mesmo é chamar o outro de feio, mesmo que, na sinceridade, ele se enquadre entre horroroso e medonho.

Sejamos honestos (na medida do possível): que guerras ou eleições foram vencidas com a verdade? Estamos atolados em mentiras desde os primórdios. Para tirar os seus corpinhos nus da reta, Adão alegou ter sido aliciado por Eva que por sua vez se confessou seduzida pela cobra. E se Deus tivesse aberto o jogo com os dois, eles jamais teriam comido a maçã se soubessem que teriam que trabalhar até morrer dependendo de uma pensão ridícula do INSS.

Mentimos até quando estamos sozinhos, mas somos hipócritas demais para decretar um feriado mundial e sair às ruas para a parada do Orgulho Mitômano. A comissão de frente estaria invariavelmente nas mãos dos políticos, seguidos logo após pelo carro abre-alas dos vendedores de automóveis e dos corretores de imóveis. Finalmente, na parte nobre do desfile irão aqueles que têm formação e a devida habilitação para mentir: os advogados, os contadores, os publicitários e os jornalistas.

Os advogados por defenderem a verdade do cliente. O grau de persuasão dessa verdade depende sempre de quanto esse cliente poderá gastar para fazê-la realmente ter existido. Quanto mais investir nisso, mais fará a sua verdade ser a mais verdadeira perante a lei.

Os contadores garantiriam seu lugar na parada por sua prestidigitação com os números. Sua magia indecifrável em criar e ocultar cifras jamais teve paralelo nem em culturas dadas à feitiçaria.

Os publicitários desfilariam no mais sofisticado carro alegórico, orgulhosos por nos fazer acreditar que precisamos de uma iogurteira elétrica de dez velocidades. Eles carregam o mérito de mexer com os nossos sentimentos a ponto de entrarmos em depressão profunda por não conseguir fazer um iogurte em nossa própria casa.

Finalmente, os jornalistas. A posição na rabeira do evento é estratégica. Nas mãos desses profissionais reside a metamorfose da mentira em verdade e vice-versa. Nós, jornalistas, construímos mentiras absurdas dizendo somente verdades e criamos incontestáveis verdades simplesmente propagando as mais deslavadas mentiras.

Neste 1º de Abril, saiamos todos à Parada dos Mentirosos. Assuma o seu lado falso, que é o seu único verdadeiro. Fox Mulder que me desculpe, mas é a mentira que está lá fora. A verdade nunca saiu do armário. A mentira é patrimônio da humanidade. Tratemo-la como tal. Já disparara Millôr: “Ninguém é dono da verdade. Mas a mentira tem acionista à beça.” Não é verdade?

Fábio Reynol

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